14 setembro, 2013

Bordando saudade


Perdia a conta de quantas vezes tentei controlar a agulha da tua máquina, as inúmeras tardes em que você me incentivava a tentar mais uma vez enquanto ao invés do tecido era meu dedo que encontrava a linha. 

Perdi a conta de quantas vezes cheguei à tua casa e te encontrava no sofá já me esperando, a gente ria dos problemas e com um sorriso você ia até a cozinha para acabar com a minha fome. Depois que comi teu arroz não queria mais nenhum outro, o teu carinho com as panelas e a tua vontade de me ver sentar ao teu lado na mesa me faziam tão bem.

Perdia a conta das piadas que eu decorava para te ver alegre; de todas as vezes que te via cantar afinadinha como uma diva, tendo classe em cada fôlego. 

Perdi a conta das histórias e fotografias que você me mostrava, de como me apresentava o significado do mundo e das pessoas. Da maneira que me defendia, sabendo da tua presença eu perdia todos os medos, para mim você era tão poderosa que chegava a ser invisível.

Perdi a conta das vezes que poderia ter ido te ver e não fui, pelo simples fato de sentir que você estaria sempre ali, a qualquer hora, que nunca, de maneira nenhuma iria nos deixar. 

Perdi a conta dos teus elogios, de como ficava orgulhosa quando eu afirmava que seria/serei médica, do teu olhar a me ver de salto alto e dos segredos que compartilhávamos baixinho enquanto havia comercial na televisão. 

Perdi a conta da tua preocupação, das dietas, dos conselhos para eu levar meu futuro da melhor maneira possível, tudo para que eu não cometesse os mesmos erros que o seus. 

Perdi a conta das nossas promessas silenciosas, de quando a gente se olhava para completar os pensamentos uma da outra, da falta de intimidade que só existia na distância, pois sempre que nos encontrávamos era como se eu ainda coubesse no teu colo. 



Perdia a conta dos dias que você já se foi, volta e meia acordo com a sensação que você está sentada na máquina, com a janela aberta, sorrindo em cada ponto dos teus desenhos e sonhos.

Apesar de tudo isso eu não te perco do meu pensamento.

Hoje te sinto muito mais perto de mim e, se você estiver usando asas tenho certeza que elas estão bordadas e com rendas, lantejoulas e glitter. Não espero nada mais de uma mulher como você, pois teu brilho ainda permanece aqui. Mesmo não tendo vocação para a melhor avó do mundo, hoje tenho certeza que meu mundo é melhor porque te conheci. 

Continua me ajudando a bordar, preciso de você me guiando nesse meu caminho. Você me deve isso, porque simplesmente, não deveria ter me deixado tão cedo. 


A saudade é uma linha sem fim.

25 agosto, 2013

Café da manhã

Não nos calamos por falta de palavras, mas por excesso de amor e por urgência de afeto. Falamos pouco porque estamos ocupados em ser a maior felicidade do mundo um para o outro.  Quando nossos lábios se juntam o tempo se reparte em frações infinitas.

Não acho justo ter apenas um par de dias ao teu lado, meu coração é maltratado com a mesma distância que faz eu te querer ainda mais.

Não quero dormir, o sono acelera a nossa despedida. Me deixa no teu peito e desliga o despertador. Feche toda a casa para evitar que o mundo lá fora tente nos atrapalhar.
Me traz o café na cama que eu te sirvo o jantar.

Minha risada é compasso toda vez que tuas mãos repetem o mesmo caminho. Ficamos em quatro paredes e existimos para sempre. Tudo que sou com você é o que eu sinto, por isso me encaixa no teu olhar, mede os centímetros da minha clavícula com teus suspiros e derrama os travesseiros.

Só você é capaz de acabar com meus anseios - assim nada pode te levar para longe, nem mesmo nossos pesadelos.


15 julho, 2013

Não desejo a ninguém a não ser a mim mesma

Ele gosta de ler para me impressionar, mas sente ciúmes quando falo que quero mais de Bukowski na estante ou que não me canso de Gabu. Aprendeu a conviver com a literatura para me convencer, cita minhas próprias poesias para que eu decida por um pouco mais de nós. Mal sabe ele que não precisa insistir. Desisto das férias, das melhores notas, dos compromissos que ainda nem conheci por mais dele em mim.

Ele desculpa minha falta de jeito com o mundo, não se importa se minha delicadeza peca por ansiedade. Uso as meias dele e não me preocupo se ele encontrar manchas de esmalte em suas fronhas. Faz tempo que nossas camas são repartidas, enquanto ele me faz dormir eu retribuo sorrindo. Se algo estiver dando errado eu estarei fazendo parte disso, no entanto se tudo der certo é porque estou com ele. O erro é sozinho, tanto se for dele quanto meu. Não admitimos errar juntos, alguém sempre tem que ter a razão – senão perde a graça, perde a vontade de nos jogarmos na parede, perde o inicio das exigências, da melhora das feridas e da antecipação para amar.

Preciso que ele lave minhas costas, quero experimentar aquelas receitas que ele retira da internet, aceito ser cobaia da felicidade. Me serve mais disso, é tão bom. Pertencer a alguém deveria ser lei, abraçar não sai da moda, querer garantir sorrisos e companhia para o fim do mundo é a melhor escolha a ser feita.

Na dúvida elogio a mãe dele, evito especular sobre o que ele já conheceu sem mim. É difícil acreditar em uma vida em que não seja a nossa. Ele sabe disso e sabe de tudo que há por debaixo da minha roupa. Por isso não ligo se ele esquecer a toalha na cama, não faz diferença se passamos mais tempo longe do que juntos. Esse sentimento é febre, supera a espera do relógio, deserda as expectativas da distância. Reconheço que desejo ele só para mim; fraquejo com hipóteses do diminutivo.

Enquanto ele me amar saberei lidar com o resto que não me faz bem.

Amém.