15 junho, 2008

Vácuo

É fácil sofrer por amor ao próximo, por amor ao mundo ou por amor ao seu filho. Este sofrimento dá a sensação de que isso faz parte da vida, de que é uma dor nobre e grandiosa. É fácil sofrer por amor a uma causa, ou a uma missão: isto só engrandece o coração de quem sofre. – Tudo bem, fale isso para os milhões de órfãos e refulgidos de todo o Oriente. Eles sentem. Eu também sinto!
As pessoas sempre colocam a culpa em algo, principalmente Nele. O Cara deve ouvir tanto, mas tanto que creio que esteja mais acabado do que eu. Nas raras conversas que tenho com ele, dificilmente peço algo, afinal de conta ele é Deus, Ele sabe dos meus pensamentos antes mesmo de eu abrir minha boca, Ele sabe do que eu preciso. Então não vamos perder tempo. Nas minhas raras conversas com Ele, o silêncio predomina.
Estréio mãos e bocas todos os dias; mudo de pele, de olhos e de língua, e visto uma alma cada vez que for preciso, andando na contramão. É sempre mais difícil ancorar
um navio no espaço.

Eu me escondo de tudo, do mundo. Sinto-me tão vazia, e por segundos me desespero. Mas, isso passa. Assim, como passa quando me sinto arrependida de não ter sentido.
Pergunto-me se eu tenho algo predestinado – aprendi que todos têm -, se existe algo que eu seja útil, se eu tenho um lugar aonde chegar. Sim, todos são predestinados. Então porque eu me sinto assim? Algumas pessoas apenas fingem não saber o caminho. Ou se perdem. Talvez, eu só esteja perdida. A verdade é que eu sinto muito medo de sentir. O que acho mais estranho é quando um fato antigo parece inusitado e me provoca estranheza. Em menos de uma vida completa ouvi inúmeros comentários indiretos de pessoas que me conhecem apenas de vista. Um disse que sou calada demais, outro que sou alegre demais. Pela entonação nenhum deles me pareceu positivo e também não estou nem um pouco incomodada por isso – ninguém é unanimidade e não tenho qualquer pretensão de ser. Tem coisas que eu nem ligo mais, pra não ter que desligar.
É assim, eu prefiro não ter para não ter que perder. É patético, eu sei. Na verdade eu sou pratica. O tempo é algo que valorizo muito, faço de tudo para economizá-lo. Porem, muitas vezes todo meu eu entra em colapso, então me obrigo a escutar uma musica, ler algum romance ou simplesmente ver um rapaz carregando o amor de suas vidas nos braços, seguido da morte da mesma. Preciso chorar, soluçar, engasgar. Pra compreender que apesar de todo esse vazio, aqui existe alguém. Alguém que sente. Eu choro pelos outros, eu choro pelo fato do rapaz não ter dito a tempo para a garota o quanta a amava. Eu choro pelo tempo. Eu choro disfarçadamente por tudo isso, enquanto na verdade estou chorando por mim. Lágrimas não resolvem nada, mas as vezes basta só chorar.
Vivo como se ‘nunca é para ser’.

Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor. Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? E quem é triste não pode esforçar-se. Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me. Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio. Entre mim e a vida há um vidro tênue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar. Sou tão inerte, tão pobrezinha, tão falho de gestos e atos. Tenho as opiniões mais desencontradas, as crenças mais diversas. É que nunca penso, nem falo, nem ajo... Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu, em que me encarno de momento. Vou a falar e falo eu - outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo quanto é a vida. Não sei os gestos a ato nenhum real; nunca aprendi a existir.
Eu nunca tenho o bastante, eu vejo sempre o "depois". Sou inquieta, egoísta, áspera e desesperançada. Uma covarde. Então escrevo. Sou triste porque escrevo. Escrevo porque sou triste. E percebo nuances de vida em todo lugar. Porque o mundo escreve em mim a cada segundo. Eu sou só um monte de retalhos. Muito do que senti eu nem posso lembrar, eu enterro na memória. Sou triste porque não me limito a apenas ser feliz. Não meto meta onde não cabe. Mas no fundo, lá no fundo da vida ela é muito boa. Porque ainda consigo chorar. Ainda consigo sentir. Eu, nessa constante agonia. E apesar de tudo, posso voltar o filme há alguns segundos atrás e ver o rapaz beijando a menina, o amor de sua vida.

12 junho, 2008

Hoje não é meu dia

A contagem regressiva acabou.
Às vezes eu me pego olhando para o nada, segurando as lágrimas que vão nascendo em meus olhos. Segurando a angustia, o medo, o sofrimento. As nuvens mudam sempre de posição, mas são sempre nuvens no céu, assim devemos ser todo dia, mutantes, porém, leais com o que pensamos e sonhamos, lembre-se, tudo se desmancham no ar, menos os pensamentos. E com isso, vivo em mim.
Hoje é só mais um dia, só mais uma quinta-feira, só mais um Dia dos Namorados. Nada que possa me abalar e coisa e tal, só me fizeram analisar as perspectivas. Primeiro esse dia é de total importância e nostalgia para todos aqueles casais extremamente apaixonados e bláblá. Esses mesmos. Aqueles que fazem loucuras, declarações e o Diabo A’4 para provarem seu amor eterno. Também tem aqueles casais que não se preocupam muito, que acaba surgindo alguns ‘problemas de última hora’ e com isso vem as decepções, ou seja, esse “dia especial” não foi tão especial assim. Não posso deixar de mencionar aquelas pessoas que entram em depressão por ver na televisão comercias de companhias telefônicas, do tipo : “De um VIVO para sua namorada e fale mais 55512154212656526565656232 minutos gratuitamente com seu amor”. É trágico. Resta para esses viventes se afogarem em glicose e dramas convencionais holiwoodianos – por exemplo, o relacionamento de Jack e Rose e seu final, digamos...romântico -, se lamentam e esperaram que essas miseráveis 24 horas passem o mais rápido possível. Elas não passam. Pois é, o tempo continua em seu curso normal.
E registrar aqui minha admiração pelas pessoas que simplesmente por estarem livres, leves – ou nem tanto -, soltas nem se importam com tal data. É só 12 de junho. Vamos sair, balada, sexo, bebida, rock, mais sexo selvagem e trabalho no outro dia. Simples, pratico e fácil. Só palavras não conquistam corações. E minha última perspectiva racional e solene a minha relação com esse dia. Não que eu me importe... Você já sabe como as coisas funcionam por aqui: eu simplesmente não me importo! Então, esse não é meu dia.

Do seu crescimento você vai descobrindo os seus pedaços adicionais; cada um que se enquadra ao seu ser. A cada um dos fatos (não) consumados, as (a) venturas que acaba tendo. O giz vai atritando contra o quadro negro e o mesmo é recebido pelo quadro. Vai formando seus traços de expressão, vai formando o seu coração (ou até o destruindo).
Chega uma hora que você olha o reflexo contrário ao espelho e não entende mais o que aconteceu... Por que o seu corpo permaneceu...
Vamos fazer de conta que eu me importo, que isto significa algo para mim, que eu acredito no amor – é só faz de conta ok? -, o Dia dos Namorados seria sim o ‘algo mais’, porem eu não saberia manter um relacionamento em que tivesse que esperar pelo dia 12 de junho pra me sentir amada. Confesso que meu sonho é receber flores. É. Não um sonho, sonho. É um sonho. Assim, rosas vermelhas. Um buquê bonito e digno de minha pessoa e queria receber na verdade uma rosa por dia, todo dia. É. Ter surpresas lá de vez em quando, escutar TE AMO nos momentos mais inusitados, ser beijada nos momentos errados, querer pegar na mão pra ver TV. Se eu acreditasse em amor, acho que não seria nem um pouco egoísta ou estranha. Talvez. Não consigo me imaginar num conto de fadas, qual é.
Sou realmente exigente – e difícil. Mercenária também -, não quero alguém que me complete. Quero alguém que me complemente. Que goste de fazer coisas bobas, que recite Camões e que diga que minhas pantufas do Pooh são um charme. Quero dar um beijo estilo ‘homem-aranha’. Quero entrar naquelas maquininhas de fotos instantâneas, em que você pode fazer careta e fotos alegres e apaixonadas. Guardar as tirinhas e ir dividir um algodão doce. Quero não ter uma trilha sonora, mas abraçá-lo e ligar o rádio. E a musica que estiver tocando naquele momento se torne nossa. Assim como tudo. Como o mundo. Mas, se eu acreditasse claro. Até porque não existe ninguém perfeito, até que você se apaixone por ele.
Provavelmente eu esteja vivendo no piloto automático, embora acredite que isso só seja praga de madrinha. E que estou longe de ser antagonista de um final feliz. Estou na espera de algo inédito.
Ninguém pode ser exatamente como eu. Algumas vezes eu mesmo tenho problemas sendo assim. Padeço só na agonia de me despedir, pra saber que só assim sou capaz de compreender a profundidade do meu amor.
O meu partido é o coração partido. E o que te faz pensar que eu me importo?
Embora, dando uma olhada rápida por mim mesma chego à conclusão de que de fato devo ser um pouco mais terna do que outras meninas da minha idade. Tudo é colorido, delicado e tem um toque divertido em meu modo de encarar a lua. E não vejo perspectiva de que isso mude com o passar dos anos. As pessoas mudam, crescem, erram, aprendem e acertam, mas acredito que a nossa essência está imune a qualquer amadurecimento.

Há momentos na vida em que se deveria calar... E deixar que o silêncio falasse ao coração; Pois há sentimentos que a linguagem não expressa... E há emoções que as palavras não sabem traduzir. E nem tem tal necessidade.
Enquanto a internet não disponibiliza uma versão melhor, eu fico com esse meu coração de sempre, que já não acredita em romances “express”, nem se contenta com amostras grátis de amor. Eu não vou amar até o dia que me for apresentado o amor de verdade. Não vou ser capaz de fingir até lá. Continuarei com toda essa insanidade misantropa, meus gestos delicados e minha frieza graciosa. Se por acaso resolver me mandar flores, não esqueça dos chocolates com avelã. E que fique aqui meu manifesto e revolta, pois se pudesse reinventar o mundo, nele existira sim, o amor.
Nesse momento há 6 bilhões, 470 milhões, 818 mil, 671 pessoas no mundo.
Algumas estão ganhando flores, outras dando; algumas estão amando, outras se doando; algumas estão sorrindo, outras chorando; algumas estão perto estando longe, outras estão longe estando perto; algumas estão nascendo, outras morrendo; algumas estão ouvindo eu te amo, outras estão perguntando se são amadas; algumas estão com o coração partido, outras com o coração aos pulos; algumas estão em jantares românticos às luzes de velas, outras dividindo uma pizza calabresa; algumas estão fazendo amor, outras só se olhando; algumas estão dançando Julio Iglesias, outras cantando Cazuza – ‘Exagerado’; algumas estão lembrando; outras vivendo; algumas estão lendo esse texto, outras escrevendo cartas de amor; algumas são como eu, outras tentando não ser. Seis bilhões de pessoas no mundo, seis bilhões de almas...
E às vezes tudo que nós precisamos é apenas uma!

Nota da autora: 
- Quando eu postei já era passado da meia-noite,
entao FELIZ DIA DOS NAMORADOS!
“Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
 
É querer estar preso por vontade;
Éservir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor;
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
                        Luís de Camões


10 junho, 2008

Cansaço existencial

Cansei desse lixo diário, cansei dessa gente descartável, cansei das pessoas vazias, cansei dessa vida de marasmos. Os fatos revelam tudo, as atitudes confirmam. O que você diz - com todo respeito - é apenas o que você diz. Retire o respeito, não me importo com você.
Então, outro dia surgiu um garoto que até pensei na possibilidade de criar alguma relação instantânea com ele, o problema é que não sei mais como começar tal processo, e sendo assim ele concluiu algo realmente digno de minha atenção. Segundo suas constatações, eu sou uma menina que sofreu uma grande desilusão ou trauma com algum membro do sexo oposto e tento compensar tentando me sair cruel e fria, enquanto no fundo sou uma menina com uma necessidade incontrolável de ser amada.
Não é realmente compreensível? Alguém que nunca me viu, age como se me conhecesse – pausa para reflexão. Risos. Até parece que eu me importo.
Talvez pelo fato dele ter um pouco – eu disse um pouco -, de razão não lhe joguei nenhuma praga, até porque se me abalasse com cada critica e reflexo aceitável e quase involuntário da casca que me cobre, creio que todo esse meu espírito misantropo e heterofóbico perderia todo o encanto do mistério.
Já nem sei por onde este garoto anda, provavelmente eu atormentei seus pensamentos por alguns instantes – tenho essa mania de grandeza, e não sinto muito.
Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia. Apesar de tudo isso, eu poria entre os Mandamentos: nunca falar de si em vão.
Deixem-me cá com todas minhas farpas e autoflagelação, e vá cuidar de seus problemas. Por mais que eu pense, que eu sinta que eu fale, tem sempre alguma coisa por dizer, nunca é o suficiente. Quem muito diz não tem muito a dizer. Então, não vou falar nada!

Eu aprecio todas as palavras que você não disse, as pessoas têm que perceber que não estou aqui para me agradar ou as fazer felizes. Eu já nasci desencarnada, fato!
Dentro de mim há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que sou – talvez essa menina citada pelo garoto que acha Victor Hugo mais atraente que Nietzsche-, sendo assim sou sempre o alvo das críticas.
Eu sou fiel às minhas vontades. É preciso ter um caos dentro de si para dar a luz uma estrela cintilante, no entanto nunca abdiquei do controle da minha vida.
Já me acostumei a estar entre a cruz e a espada, pessoalmente a espada me atrai mais, porém a cruz sempre foi quem me defendeu, embora não acredite nesse escudo tão tolerante. Quando não se tem mais em que acreditar, acabamos por introduzir em nossa vida tudo aquilo que por algum segundo se tornou necessário, até mesmo o amor. Uma necessidade. Incontrolável. O que você não tem, você não precisa agora, o que você não sabe, você pode sentir de algum modo.
Nessas horas costumo responder com o silêncio, não existe argumento que possa revidá-lo – ele é a melhor arma. Sou alguém nadaptado do mundo, sou feliz somente quando durmo.
Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do planeta. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Portanto, não existe amor, muito menos essa necessidade incontrolável dentro de mim.