01 maio, 2008

Do lado de lá

Embora acredite que a morte é só a morte, nada me deixa mais atormentada do que esperar por ela em um encontro que não seja nosso. Nas grandes cidades de um país tão violento, os muros e as grades nos protegem de quase tudo, mas o quase tudo quase sempre é quase nada, e nada nos protege de uma vida sem sentido. Morrer hoje em dia é tão comum, simples e fácil. Nada mais é capaz de me surpreender, está pra nascer o humano trucida que conseguirá superar sua espécie cometendo algo que possa me chocar. Perdeu-se o respeito pela morte, ela já não é tão temida, as pessoas buscam encontrá-la cada vez mais rápido e sem pestanejar conseguem dar um fim a suas vidas. Alguns de formas mais banais, outros num dia qualquer, num momento qualquer, um óbito qualquer.
Você acredita no destino ou no futuro? Para mim, um depende do outro. Se estiver no seu destino que você irá morrer atropelado, não adianta. Você será atropelado. Mas, o que se pode mudar ou talvez ‘enganar’ é pelo fato de ir morar na Inglaterra, talvez em Tóquio ou vá viajar para Tocantins, você só estará mudando a atmosfera de sua morte. Não indo trabalhar na sexta, ou se atrasando na segunda só ira atrasar, e assim algumas pessoas vão levando e vivendo. Um dia após o outro, até não dar mais. Um caminhão passa por cima, acabou. E assim é, você nunca ouviu aquele tipo de noticia sensacionalista em que dizem: ‘ Único sobrevivente de catástrofe aérea,’ ou ‘Mulher leva 12 tiros e acaba ilesa’ – enquanto que por ironia do destino, algumas pessoas comem peixe, algumas vão até a padaria da esquina ou aceitam carona de algum (des)conhecido e nunca mais voltam para casa. Somos apenas uma conversa, poupemos os inevitáveis detalhes sórdidos.

Existe as 4 fases – eu as chamo assim -, da morte: primeiro você não acredita que sua vida acabou, segundo você não aceita e se revolta, em terceiro você tenta barganhar – como se sua casa na praia ou sua BMW tivessem algum valor perante a situação -, e quarta e última vem a depressão, quando mais nada te resta, suas lágrimas explodem pelos seus olhos, você não consegue pensar no depois por medo. Sim, você sente muito medo. Quem tem um por que para o qual viver pode suportar qualquer como. Já morrer é mais simples, pode acreditar. Baseio-me em mortes alheias – que fique claro-, e isso só ocorre em casos de doenças terminais ou quando você for seqüestrado – e sua família não tiver BMW ou casa na praia -, também não é muito aconselhável mexer com mafiosos e derivados. Eles costumam viver de mau humor e adorariam se divertir com sua execução.
É isso. Você morre. Acabou. Fim da linha. Já era. Tchau. Bateu as botas. Esticou as canelas. Não tem mais que se preocupar com o IPVA nem com a camada de ozônio.

A morte em si não é nenhum um pouco parecida com aquela personagem de capuz e foice que sobe das profundezas e coisa e tal. Ela não passa de um anjo. E sua ‘missão’ é buscar as almas que não pertencem mais esse mundo. A morte esta exausta, já passou por diversos lugares, já viu muita coisa. Talvez ela entre de greve, mas isso só seria pior, almas vagando por ruas já tem demais, a morte precisa ser reconhecida, ela quer seu respeito de volta. Chega de vim buscar pessoas antes da hora. Contenha-se e espere na fila, seu dia chegara, pode apostar.
Do lado de lá eu irei continuar todas as minhas revoltas e mártires, todos aqueles meus tantos erros me acompanharam. Quem amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. E lá, continuarei sozinha e não quero esperar nada, minha força está na solidão.
Descanse em paz!

2 comentários :

sylvia disse...

Concordo plenamente com voce, a morte foi banalizada, assim como tudo que cai na boca da cultura em massa, virou piada! Se o cara perde o trem ele se mata, se ganha uma medalha ele vive! É ridiculo!

(E voce menina, talvez não acredite, porque é teimosa e cabeça dura, mas eu adorei esse texto, ele está lindo e sincero)!

Van disse...

Muito bom!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Tudo está muito banalizado....sorrir, amar, morrer...

Bjusssss!