10 maio, 2008

Feche a luz e desligue a porta

Dormir é uma das minhas atividades preferidas, veja bem, não que eu seja preguiçosa ou goste de alimentar a fadiga, longe de mim, o fato é que assim é o único jeito de me livrar de grande parte das coisas que me atormentam. Minha mãe diz que eu estou em depressão. Eu discordo. Apenas prefiro fingir de olhos fechados. Talvez eu seja teu gato preto, ou talvez seja só um carma inacabado e malfeito – se bem que a idéia do gato me atrai mais, fico bem de preto -, poderia apenas vomitar alguns palavras que fizesse sentido e lhe impressionar com uma mentira vulgar – não que eu não goste de mentiras, elas costumam me divertir mais que desgraças alheias. Nossa, minha mãe está criando um monstro. A verdade é que prefiro ser mais temível do que amável.
Escrevo para poder me entender, escrevo para mim. Tento descobrir onde é que eu estou errando, sou um simulacro de idéias: alguém que está sempre mergulhando num abismo sedutor procurando melancolias, tristezas, remorsos, pois assim acho respostas e me completo. Vivo esperando e procurando um trevo no meu jardim, o problema é que ultimamente nem tempo de procurar eu tenho. Acho que não sei quem sou. Só sei do que não gosto – e se você for uma pessoa nem venha com graça que te furo com a faquinha do rocambole -, olhar ameaçador.
Encontrando minha intensidade, cuja nem sabia que existia, provavelmente me faria levantar da cama num sábado à tarde e ir comer um algodão doce. Preposições costumam me acompanhar até na hora de escovar os dentes, já tentei negociar, as miseráveis não vendem a ausência.
Sofro de tudo que pode ser dramático o suficiente para um roteiro de novela mexicana – acredito que me daria melhor que a Maria do Bairro -, repulsão instintiva que se afasta de outros, não gosto do coletivo, meu egocentrismo e minha humildade extremista não me deixam usar o nós. Aprendemos tudo sobre a Baía dos Porcos na aula de Civilização Mundial — em que um grupo de estrategistas militares, lá dos anos 1960, fez um plano para invadir Cuba e depor Fidel Castro, e convenceram o presidente Kennedy a adotar o plano. Só que eles chegaram lá e descobriram que havia muito mais soldados cubanos e que também ninguém tinha checado para ver se as montanhas para onde eles deviam fugir por segurança ficavam mesmo daquele lado da ilha (não ficavam).
Muitos historiadores e sociólogos atribuíram o problema na Baía dos Porcos ao "pensamento em grupo", fenômeno que ocorre quando um grupo tem tanta vontade de chegar a uma conclusão unânime que eles preferem não conferir os fatos. Viu porque gosto do individualismo? Não sei se vivo na solidão por opção, tento filmar o que eu penso ou talvez gravar o que sinto só para servir de exemplo, de mau exemplo.
Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro. Amo a angústia de ser incomum, quero ficar guardada no meu quarto e ali permanecer até a hora que achar que posso obter algo de vantajoso do que tem lá fora. Não quero ter ninguém por perto, não quero sentir nada, e se for vicioso? Eu, nada mais sou que mais um ser humano demasiado, que não é composto só de alma, mas sim de carne... que morre e apodrece!
Oscilações de tristeza e definições são entediantes. No fundo é tudo teatro – creio que sou a personagem principal -, um estudado simulacro. Quase todo mundo me odeia – eu odeio todo mundo e sou correspondida -, mas a verdade é que quase ninguém realmente me conhece. Embora tenha pena delas, quero apenas que compareçam em meu roteiro de frustrações para me divertirem. Sim, eu sinto pena. Sabe por quê? Porque a maioria delas não sabe nada além daquilo que pode ver com seus olhos. Elas tiram suas conclusões baseadas no meu mau humor e indiferença gratuita, enfim, não queira me ver com raiva, se eu fosse você sairia correndo sem olhar para trás. E por favor, quando sair feche a luz e desligue a porta.

Um comentário :

girl next the door disse...

Queria poder dormir em paz também,mas infelizmente a insonia não deixa.

É as pessoas tendem a ser superficiais, enxergam só o óbvio, algo além é demais para a cabecinha delas, eu devo ser superficial também , admito.
(Mas se quer saber eu também tenho pena delas por não conseguirem te enxergar como voce é!)