20 maio, 2008

Mãos dadas

Era verão de 95, lembro-me como se fosse ontem. A gente costumava se encontrar perto da parada por volta das duas da tarde, quase como um ritual. Éramos em 9 – 8 garotos e como você pode constatar eu era a única que usava calçinha ali. Amigos de infância, desde que começamos a engatinhar. Onde um estava o outro estava. Era assim. Algo de sentimento e de necessidade. Mas, ali no meio havia um garoto em especial, o mais lindo dos mortais, Guilherme. Ele e eu usávamos a presença do outro para transbordar manifestações de sorrisos e brincadeiras. Ele era meu melhor amigo, meu melhor amor. Modéstia parte, quem colocava ordem naquele bando de garotos toscos e bobos era eu, não creio que fosse pela minha aparência física – eu era gorda e chata. Hoje eu sou gorda e chata. Enfim. -, acho que minha sagaz esperteza os surpreendia, os planos mais maquiavélicos eram elaborados por mim, e eles faziam o que eu mandava. Sempre achei que me dou bem como líder. Apertar a campainha da vizinha loca e sair correndo, abrir a portinhola para o cachorro do velho coronel Soares fugir, assustar as outras menininhas e cortar cabelos alheios...tudo era tão inocente! Mas, o que nos deixava mais alegre era comprar chiclete Ping-pong e fazer competição de quem conseguia fazer a bola maior – adivinhe quem sempre ganhava? Pois é. -, e depois jogar futebol na cancha do lado de casa. O Guilherme era bom, me lembro que ele era o melhor dos garotos. Ele sempre me escolhia pro seu time, eu corria atrás da bola feito loca, porque se fizesse gol teria um motivo qualquer para abraçá-lo. Eu fazia gol. Muitos gols. Acho que tempos como esses me lembram que tenho que manter meus pés no chão. Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio. Deixe-me sentir o vento que logo se segue a historia.

Assim foi até 99, um dia minha mãe chegou braba em casa, era de tarde eu estava vendo Chavez - até hoje não sei como ele consegue viver dentro de um baril, porra, esse cara é o cara! -, acredito que ela soube disfarçar bem a decepção, talvez. A professora havia telefonado para ela e marcado uma reunião particular. E adivinha qual o assunto da reunião: eu – dã -, a professora encheu a cabeça da minha mãe, dizendo que eu já estava crescendo e que deveria me relacionar com as meninas, deixar o time de futebol da escola e me afastar dos garotos. Quando ela me disse isso, eu corri. Não sabia pra onde estava indo, nem o que iria fazer, eu sou corri. Antes do anoitecer eu voltei para casa, sabia que ia ser pior quando meu pai chegasse, e eu havia decorado um amontoado de motivos para fazê-los desistir dessa idéia absurda. Abri a porta e meu pai ainda não tinha chegado, minha mãe estava na sala me esperando. Eu voltei a fechar a porta e sentei nos degraus da frente de casa. Algum tempo depois minha mãe apareceu. Nada que eu decorei saiu, me deu um branco e chorei, chorei muito. Então, ela disse que se eu entrasse para um grupo de dança poderia continuar no futebol e teria minha vida normal. O Guilherme continuaria ali. No outro dia no recreio contei pro Gui o trato, ou melhor, chantagem que minha mãe usou para me ajustar a sociedade – cheguei a comentar que ela ameaçou cortar meus cachinhos? -, ele achou engraçado e disse que ia rir muito se me visse rodopiando feito pião. Eu, entretanto não achei nenhuma graça. Naquele dia não fui do time dele.

O pássaro com o espinho cravado no peito segue uma lei imutável; impelido por ela, não sabe o que é empalar-se, e morre cantando. No instante em que o espinho penetra não há consciência nele de morrer futuro; limita-se a cantar e canta até que não lhe sobra vida para emitir uma única nota. Mas nós, quando enfiamos os espinhos no peito, nós sabemos. Compreendemos. E assim mesmo o fazemos. Assim mesmo o fazemos. Ficamos alguns dias sem nos falar, na verdade quatro dias. E eu pensava que seriam os quatros piores dias da minha vida, pobre de mim, nem sabia o que me esperava.
No sábado ele apareceu lá em casa me convidando para andar de carrinho de lomba, eu no intuito de o fazer sentir falta de mim e perceber o quanto era importante, simplesmente esnobei a idéia. Eu tinha que ensaiar porque no fim de semana seguinte teria já minha primeira apresentação. Não sei se foi miragem, mas me pareceu que ele queria ficar. No domingo joguei futebol com os garotos e ele não apareceu. Nossa, como estava sentindo sua falta, pobre de mim, nem sabia o que me esperava.
Na segunda feira ele trouxe um pacote Trakinas de merenda para mim, ele costumava sustentar minha glicose diária, eu adorava. O Guilherme era o tipo de pessoa que você encontra paz em sua presença, que o sorriso tranqüiliza e quando te abraça parece que tudo aquilo que está perdido se transforma em borboletas. Eu tinha uma coleção de borboletas. Fizemos as pazes e no dia seguinte voltou tudo como era antes, pobre de mim, nem sabia o que me esperava. Na sexta feira à noite, era tarde, aliás, ele bateu na porta da minha casa e disse pra minha mãe que precisava falar comigo e que era importante. Minha mãe, então me chamou. Quando o vi, senti algo que nunca tinha sentido antes, quer dizer, já sim, mas agora estava mais forte. Muito mais forte. Ele me olhou e disse com tímido e com aquele jeito único de temer o que o faz bem: - Tó, é pra você. Quando eu vi o que era senti meu corpo gelar, ou queimar não sei ao certo – era uma garota de quase 9 anos. Não sabia o que fazer, ver Scooby Doo não me serviu para nada. Só sei que queria ficar ali, pra sempre. Ele me deu seu bonequinho favorito do Cavalheiro do Zodíaco e uma folha com algo desenhando, era ele e eu. De mãos dadas. – tenho até hoje guardado, junto com tudo que ele me fez sentir. Sinto que é como sonhar, que a facilidade para lembrar, é a vontade de nunca esquecer. Eu olhei para ele, ele disse ‘eu te amo!’-, e eu saí correndo para dentro de casa. Não sei o que me deu, acredite se tem algo que me arrependo é disso, eternamente.

No sábado de manha acordei feliz, seria minha primeira apresentação, apesar de dançar só uma música, minha fantasia era super colorida – e você sabe o quanto eu gosto de cores -, eu estava entusiasmada e depois de dançar iria dizer pro Guilherme que eu também amava ele, e daria algo bem legal para ele, minha coleção de bolinhas de godê, algumas figurinhas ou talvez o meu dinossauro. Estava quase pronta, minha mãe estava ansiosa e orgulhosa, eu iria dançar com toda a graciosidade que escondida dentro de uma carcaça que amava. Amava muito. Então, eu fui. Apresentei-me. Fui aplaudida. Tirei fotos. E o celular do meu pai tocou – lembro do aparelho ser semelhante ao um tijolo com antena -, sei que ele olhou pra mim e me abraçou. Minha mãe já mostrava sinal de nervosismo, então meu pai suspiro: - O Guilherme sofreu um acidente.
Não sei ao certo se Deus escolhe os preparados ou prepara os escolhidos. Só sei que não precisava de um motivo para odiá-lo. A vida não é medida pelo número de vezes que você respirou, mas pelos momentos em que você perdeu o fôlego. Eu fiquei sem ar. Ele estava vindo de bicicleta até o Teatro de Assis para me ver dançar, quando passou pelo cruzamento não viu a caminhonete que vinha em sua direção, ele estava com pressa. Ele queria me ver rodopiar que nem pião. Eu o perdi na hora. Eu perdi o amor da minha vida. Eu não disse o quanto o amava. O amor é o ridículo da vida, a gente procura nele a pureza impossível, uma pureza que está sempre se pondo, indo embora, a vida veio e o levou com ela. Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.
Hoje eu sou um pequeno pedaço de tudo que ele me deixou, a presença da ausência sempre vai estar aqui, nada pode substituir. Nada. Quem sou eu já não importa, nem nunca importou. E mesmo que eu não te veja, posso sentir quando você pensa em mim, passaria por cima de qualquer obstáculo e mudaria tudo mais de mil vezes, por você, para cuidar de você. Eu te amo muito, inferno.

7 comentários :

Sonebald disse...

Não precisamos de razão quando não nos é concedido a fórmula mágica de amar, basta somente acreditarmos que o amor existe para que isto então se torne a única razão de vivermos.

:)

Pra você também, nunca pare de escrever.

Anônimo disse...

Bom pra voce, pelo menos teve romance na vida..

' arcano disse...

haha, que nada. romance é para mediocres (:

girl next the door disse...

nossa!
triste, incrivel e surrealmente inocente, tanto que se torna lindo, garota voce pode me odiar mas, cara voce escreve muito beeem!

(acredito que voce botava ordem lá sim! hahaha)

Homo sapiens disse...

Que coisa não? Não aconteceu só com você não. Romance nao é para medíocres, romance é pra quem tem falta de vergonha na cara(só um pouco).
Amar sem razão, isso SIM é amar, amar simplesmente. Não se preocupe, vc não é a única no mundo, compartilho de uma dor semelhante >]

p.s: Definitivamente VC escreve BEM.

Bell (Isabelle Bastos) disse...

Muuuito obrigada pelo elogio.
:D
Fico muito agradeicda e lisonjeada.
:D

Vênyllu disse...

AIAIAi.... Para de me fazer chorar ok? É tão bonito o texto e infelizmente o arrependimento por não dizer a alguém o que se sente dói. Dói fundo, mas a vida segue. A vida tem que seguir...